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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27776: In Memoriam (572): João Gomes-Pedro (1939- 2026), ex-alf mil médico, BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68): "a guerra deu-me uma preparação brutal para a vida"

1. O prof doutor João Gomes-Pedro (foto ao lado, do Notícias Magazinbe, de 5/6/2017, da autoria de Jorge Simão)  morreu recentemente, no passado dia 16 do corrente, aos 86 anos.

É justo fazermos-lhe aqui uma pequena homenagem (*), por três ou quatro ou três razões:

 (i) é uma figura de referência da medicina, da saúde e do ensino em Portugal. 

(ii) teve um papel inovador no desenvolvimento da pediatria em Portugal;  

(iii) pelas suas mãos passaram muitos dos nossos filhos e netos;

(iv) mas o que poucos sabem é que também fez a guerra colonial, como jovem médico no BCAÇ 1887 (Farim, 1966/68), o mesmo batalhão a que pertencia o dr. Adão Cruz, nosso grão-tabanqueiro, alf mil médico, CCAÇ 1547, Bigene, 1966/68) (*), mas também o Domingos Gonçalves, ex-alf mil, CCAÇ 1546.

A importância que a Guiné teve nas suas opções futuras foi destacada por ele em entrevista que deu ao Notícias Magazine  (que sai com o Jornal de Notícias e Diário de Notícias),  em 5 de junho de 2017 (**),  

A entrevista acaba por ser um retrato fascinante da sua vida e obra, sendo a experiência na guerra colonial (1966-1968), na região do Óio, algo que muito valorizou por ter moldado o seu percurso como homem,  pediatra e professor.

Também ele sentiu, como qualquer um de nós, ao desembarcar naquela terra verde-rubra, um choque térmico e emocional: "Não consigo ficar aqui nem umas horas". Também bebeu a água do Geba e do Cacheu ... Mas a saudade do filho recém-nascido (Tiago) e a responsabilidade familiar (especialmente para não desiludir a mãe) e a paixão pela carreira médica levaram-no a assumir a missão.

Notável foi o seu envolvimento com as populações: organizou consultas para crianças locais, inclusivamente aprendeu fula (algumas palavras e expressões em fula, imaginamos...),  para comunicar diretamente com as famílias (desconfiava que os tradutores não transmitiam tudo), e confessou que enfrentou epidemias de sarampo com mortalidade elevadíssima.

Trabalhou, em Farim, com escassez de medicamentos, instalações inadequadas e recursos limitados, co.o qualquer outro médico. De resto. Tinha-se licenciado em 1962.  A guerra ensinou-lhe a resiliência e a importância da empatia, lições que transportou para a pediatria: "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida" (sic).

A pediatria acabou por ser a sua paixão e  missão. Uma paixão que nasceu da relação com Jácome Delfim (seu padrinho de casamento) e do sogro, também ele pediatra. Mas foi a experiência na Guiné que solidificou o seu compromisso com os direitos da criança e a abordagem holística e humanista.

Seria ele quem viria a introduzir, nos anos 80, em Portugal, a consulta pré-natal de pediatria, defendendo que o vínculo entre pais e bebé começa ainda no útero. 

Foi pioneiro na abordagem centrada na família, inspirado por médico norte-americano  Berry Brazelton (1918-2018), e na valorização do comportamento e da afetividade, e não só da doença.   

Rompendo com séculos de preconceitos em relação às crianças, defendia que o bebé tem direito a uma consulta antes de nascer, pois já ouve, vê e distingue vozes no útero.

 O prof doutor João Gomes-Pedro usou os avanços da neurociência para validar cientificamente o que a intuição e Brazelton á lhe diziam: os bebés comunicam desde o nascimento.

Criou também uma "via verde" no consultório para adolescentes, onde podiam falar de tudo (namoros, cursos, dúvidas existenciais).

Enfim, deixa um legado importante: a Fundação Brazelton-Gomes Pedro, criada por ele e por Brazelton em 2010, que tem como missão formar profissionais em "Ciência do Bebé e da Família", defendendo que a felicidade da criança depende da confiança e competência dos pais.

Era um médico e um homem de primeira grandeza: sempre disponível, atendia chamadas a qualquer hora ("Doutor, parece que vai estar sol, acha que ponha um chapéu à menina logo de manhã?"). 

Para ele, a pediatria era "brincar com crianças" e descobrir quem é cada uma, para além dos sintomas.

Criticava o stress da sociedade moderna e os índices altos de separação divórcio em Portugal, alertando para o impacto negativo nas crianças do disfuncionamento familiar. Defendia a igualdade parental e a importância do afeto na construção da resiliência.

Mesmo após a jubilação como professor catedráti
co, e diretor do Departamento da Criança e da Família da Unidade Local de Saúde de Santa Maria, continuava a trabalhar 10 horas por dia, e mantinha ligações afetivas com pessoas que acompanhava desde bebés (muitos já adultos, voltavam só para conversar).

É autor de diversas obras relevantes nas áreas da pediatria e neuropediatria.

Eis algumas frases que destacamos da sua entrevista de 2017 ao JN:
  • "A guerra deu-me uma preparação brutal para a vida."
  • "O pediatra tem de ser um detetive do comportamento, não só da doença."
  • "O grande objetivo é a felicidade da criança."
  • "Os pais são os grandes mestres da natureza do seu bebé."
Em suma, e como lição para os antigos combatentes, João Gomes-Pedro transformou o trauma da guerra numa força para humanizar a medicina.

 A Guiné ensinou-lhe que "a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas culturas" - lição que aplicou ao cuidar de cada criança como um universo único.

2. Eis alguns excertos dessa entrevista ao Notícias Magazine, em 2017 (*)

(...) JN - Quando acabou o curso, em 1965, estava prestes a ser pai. Com a paternidade, passou a olhar para a pediatria de outra perspetiva?

JGP - O nascimento de um filho, ainda por cima quando o pai não é suficientemente maduro – só tinha 23 anos – é um marco decisivo e mudou essencialmente a minha sensibilidade.

Pouco meses depois de ser pai, fui para a Guiné, para a guerra colonial. Lembro-me de aterrar, sair do avião, sentir o bafo de calor e pensar «não consigo ficar aqui nem umas horas».

No mato não havia nada, mas eu organizei uma consulta específica para crianças e fiz questão de aprender a falar fula, porque desconfiava que o enfermeiro-tradutor não relatava tudo o que os pais me contavam. A mortalidade era elevadíssima, em dois anos «apanhei» duas epidemias de sarampo.

A guerra, à qual pensei fugir, deu-me uma preparação brutal para a vida. Desde logo pelas saudades que tinha do meu filho Tiago, sempre presente nas minhas descobertas.

JN - Porque não fugiu?

JGP - A razão essencial foi a de saber do desgosto que causaria à minha mãe, com quem tinha uma relação muito forte. O não poder regressar a Portugal era um imperativo a par da responsabilidade de já ter uma família. Percebi também que seria o fim de uma carreira de médico em Portugal. Uma carreira sonhada. Por isso, decidi assumir a guerra.

A Guiné foi uma experiência importantíssima na minha vida. Percebi que a única maneira de não entrar em depressão era viver intensamente África e as suas diferentes culturas. Foi um tempo em que estudei e aprendi muito com as populações e com os meus companheiros de batalhão.

JN - Na Guiné viveu seguramente momentos terríveis. 

JGP - Muitos. Surgiram-me, no posto clínico de Farim, três soldados com queimaduras extensíssimas, provocadas pela explosão de uma mina, que se agarraram a mim, a gritar de dor, chamando pelas suas mães, pedindo-me aos gritos que não os deixasse morrer.

JN - Pediatria, a carreira sonhada. Fale-me dos primeiros tempos dessa carreira. JGP - Tenho pensado nisso, agora que tenciono deixar a clínica, em 2018.

JGP - Lembro-me da minha primeira consulta privada. Vi a primeira criança, uma rapariga com 7 anos, numa clínica da Baixa, onde trabalhavam vários médicos à espera que alguém batesse à porta. Um dia, entrou uma senhora à procura de um pediatra. A miúda tinha umas manchas, talvez alergia. Vi-a mais uma ou duas vezes. 

Nessa altura, a pediatria ia apenas até aos 10 anos, mas não me importava. Passei a ver crianças muito mais velhas. A adolescência ganhou um capítulo essencial da pediatria que na altura não tinha. Foi em 1968, já vão lá 49 anos. O pediatra era um médico que aplicava apenas a metodologia clássica. (...)

(O resto desta entrevista é obrigatório ler, aqui, para se perceber a importância que este nosso camarada da Guiné  (, camarada, apesar da deferência com que tratávamos os alferes milicianos médicos.... ) teve na mudança de paradigma da pediatria em Portugal. Recomendo a sua leitura aos pais e avós... (Declaração de interesse: conheci-o pessoal mas circunstancialmente, há maais de vinte anos, na Faculdade de Medicina de Lisboa,  já era uma sumidade, mas eu não sabia que  tinha estado na Guiné.)

3. Segundo o  testemunho do nosso camarada Domingos Gonçalves (ex-alf mil  CCAÇ 1546/BCAÇ 1887, Nova Lamego, Fá Mandinga e Binta, 1966/68), o batalhão tinha três médicos, sendo João Gomes-Pedro um deles. 

"Como pessoa, apenas posso referir que era um homem excepcional."

(...) "Na altura, era ainda clínico geral, mas já se destacava pela sua competência e humanismo, mesmo em condições extremamente precárias. Apesar das dificuldades, ele e os outros os médicos do batalhão conseguiam 'fazer milagres' e davam assistência não só aos militares, mas também às populações civis locais." (...)

O Domingos Gonçalves testemunha que o João Gomes-Pedro organizou consultas específicas para crianças na Guiné.

Os outros dois médicos chamavam-se: um Carlos Alberto, e outro, Adão [Cruz, nosso grão-tabanqueiro].

(...) As condições em que trabalhavam eram precárias, quer no que respeita a instalações, quer no que respeita a medicamentos, ou outro material médico. Regra geral, mesmo não sendo santos, às vezes conseguiam fazer milagres. Num relatório sobre diversas matérias, o comandante do batalhão a que pertenci, queixava-se.

" No Serviço de Saúde há grandes atrasos na recepção dos medicamentos, e o não fornecimento de vários produtos requisitados, o que perturba o fornecimento da assistência, que é ainda prejudicada pelas deficientes instalações dos postos de saúde." (...)

Será que alguém mais se lembra dele ? O Domingos Gonçalves, sim. O dr. Adão Cruz também se deve lembrar do colega.

(Pesquisa, condensação, revisão / fixação de texto: LG)
___________________

Notas do editor LG:

(**) Publicada originalmemnte no Notícias Magazine > João Gomes Pedro, o homem que revolucionou a pediatria em Portugal | Entrevista de Alexandra Tavares-Teles | Foto de Jorge Simão | 5 de junho, 2017 às 01:41

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Guiné 61/74 - P27719: (in)citações (283): "Se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo" (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


SE A MINHA MÃE ESTIVESSE AQUI DAVA-LHE UM BEIJO

adão cruz

Depois de ser obrigado a assumir que a nossa democracia se resume a meter uma cruz dentro de um pequeno quadrado, de quatro em quatro ou de cinco em cinco anos, fui almoçar. O restaurante rapidamente se encheu de caras mais ou menos alegres e sorridentes, deixando transparecer a satisfação do dever cumprido. No fim do almoço, vim até casa seguir o ritual a que a velhice obriga, tomar os comprimidos e fazer uma pequena sesta. Como a chuva se dignou dar uma curta trégua, resolvi pegar no carro, como faço habitualmente, nunca sabendo ao certo se é o carro que me obriga a sair, se sou eu que o obrigo a mexer-se. O dilema mantem-se por alguns momentos, até que surja a decisão de andar ou voltar para casa.

Sempre que decido, o destino é o rio, as margens do Douro, mas logo que me encontro na rua, outra indecisão aparece, nascente ou poente. Resolvo a situação, alternando. Hoje calhou ser dia de ir para poente, para o Cais do Ouro, um pouco antes da Cantareira. Parei o carro frente ao rio, que embora cheio, não transbordava, e decidi fazer uma curta caminhada. Mal cheguei à pequena casa que fica na ponta do cais, vi uma rapariga, muito magra, aí dos seus quinze anos, com um kispo e carapuço na cabeça, uma saia bege cobrindo umas calças escuras, encostada à parede virada para o rio, gesticulando e fazendo movimentos desordenados, apontando o dedo para o rio como que a culpá-lo. Por vezes parava e sossegava. A seu lado tinha uma minúscula trotineta de criança. A uma certa distância, mantive-me atento, procurando não dar nas vistas. Ao fim de algum tempo, retomou os gestos, pegou na trotineta, em cima da qual andou alguns metros, deu umas voltas pelo relvado com a trotineta na mão e desapareceu.

A chuva começou a cair de mansinho obrigando-me a voltar para o carro. A meio do caminho, a rapariga apareceu subitamente a meu lado. Não era uma rapariga, mas um rapaz, muito magro, bonito, com ar doce e uma barbicha muito rala. Um tanto acanhado, pediu-me uma moeda. Que idade tens, perguntei. Vinte e um. Pareces muito mais novo, o que fazes? Encolheu os ombros. Tens alguma doença? Encolheu novamente os ombros e disse baixinho, uns problemas. Com a droga? Encolheu de novo os ombros. Tens fome? Assentiu, com a cabeça. Toma lá cinco euros e vai comer qualquer coisa. Baixou o rosto, sorriu docemente, não sei se para fora se para dentro e disse: eu ando de saia, mas não sou… a saia é da minha mãe e é muito quentinha. Como te chamas? Carlos. Olha, Carlitos, eu gostava de conversar mais contigo, mas a chuva está a pegar. Dá-me os cinco euros e toma lá vinte. Vai comer qualquer coisa.

O rapaz levantou a cabeça, espantado, e sorriu abertamente. Olhou-me com toda a doçura dos seus olhos negros e com a voz mais firme disse: se a minha mãe estivesse aqui dava-lhe um beijo.

Voltei para o carro e ali me mantive por algum tempo, tão triste como a chuva que começou a cair sem piedade. Pobre Carlitos, como eu gostaria que tivesses tido outra sorte. E voltei para casa a pensar nos meus netos.

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Nota do editor

Último post da série de 14 de dezembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

domingo, 14 de dezembro de 2025

Guiné 61/74 - P27528: (in)citações (282): Reflexão entre dois copos de tintol (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)


REFLEXÃO ENTRE DOIS COPOS DE TINTOL

adão cruz

Caros amigos, já tenho escrito algumas reflexões referindo o vinho como estimulante da criatividade, pois ao contrário do que por aí se divulga, dizendo que o vinho é pior do que o tabaco e é o causador de sete cancros (!), ao fim de uma longa vida e de uma grande experiência profissional nunca de tal me dei conta. Além disso, um ou dois copinhos funcionam como uma espécie de analgésico ou anestésico, ainda que ligeiro, contra a dor causada pela barbárie e a crueldade de um mundo que começa a não ter razão de existir.

Almocei na Taberna do Doutor. “Doutor” refere-se à minha pessoa, por amizade e gentileza do meu amigo Zé Carlos, dono do restaurante. Entre dois copos de tintol, falámos de várias coisas. Ao ver entrar para o quarto de banho uma daquelas mulheres que dos sapatos ao cabelo, tendo o rabo de permeio, enquadram o tipo curvilíneo da exibição meramente física, falámos de sexo e do mais importante órgão sexual, o cérebro. Também falámos de amor, de simpatia e empatia, conceitos neurobiológicos bem diferentes. E a conversa desenrolou-se por aí fora, a sério e a brincar. Entretanto, o meu amigo recebeu um telefonema e começou a falar das suas vidas ao telefone. Foi aqui que entrei no segundo copo e a minha reflexão mudou de rumo.

Nesta idade, começo a caminhar à margem da vida, vivendo cada vez menos a vida exterior e cada vez mais a vida interior, ou por outras palavras, vivendo cada vez mais interiormente o sofrimento dos outros, dos desgraçados povos deste terrífico mundo.

 Nunca tive nem tenho a presunção de ser o que quer que seja, além de ser Eu. Penso que sou Eu, apenas Eu, e que sempre procurei na vida dar a este Eu seriedade e autenticidade. Contudo, pensando bem, eu não sou eu, eu não sou só eu, sou eu e o outro, eu e os outros.

 A vida é tanto mais vida quanto mais entrelaçada estiver com as malhas das outras vidas, com a poesia, a arte e o sonho de viver em feliz comunidade, melhor dizendo, entre as malhas do sentimento, porque é de sentimentos que se trata, do ponto de vista subjectivo, objectivo, científico e neurobiológico. O rio da nossa vida, da vida de todos nós tem todo o direito de nascer, correr mais fundo ou menos fundo, entre margens mais apertadas ou menos apertadas, até se alargar num estuário, de braços abertos, em plena liberdade, esquecendo as margens e sussurrando baixinho, quando é afagado pela brisa dolente e poética do fim da tarde, à entrada do mar.

Mais um gole, e a reflexão continuou. Uma reflexão que nada tem de profundo, mas que bate fundo ao reduzir-nos à nossa essência, de raízes bem assentes na vida, que devia gerar caules e flores distintas, mais ou menos delicadas e perfumadas, o que infelizmente nem sempre acontece. 

Falámos de mulheres, de trajes, de comportamentos, do culto do corpo acima de tudo, de vidas e outras coisas. Estas conversas de taberna não ficam atrás de palestras e debates no que respeita ao seu sentido pedagógico. As memórias da vida permitem-nos reconhecer nestas reflexões entre dois copos uma maior sintonia entre o sentimento e a sua materialização. Sobretudo, a materialização do sentimento da felicidade, muito difícil de acontecer na maioria das vidas, ao contrário do que se pensa.

 A verdadeira felicidade não é só ter a barriga cheia, ou a vida lustrosa tantas vezes vazia, ou a vida cheia… tantas vezes de nada. Por isso, eu penso que poucos seres humanos conseguem ultrapassar aquela fronteira para além da qual se encontra o sol radioso da felicidade, a qual só existe na verdadeira fruição estética da vida humana.

Assim sendo, escoei o copinho e vim até casa estender-me ao comprido, tendo apenas o tecto como horizonte.

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Nota do editor

Último post da série de 18 de novembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27438: (in)citações (281): Os deuses também erram (Manuel Barros Castro, ex-Fur Mil Enfermeiro)

terça-feira, 23 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27246: Felizmente ainda há verão em 2025 (38): "Poema de Outono", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


POEMA DE OUTONO

Ainda caem a meus pés
bolinhas de sol e pérolas de chuva
do alto da varanda que eu já fui
e fazem brilhar humildemente
a ilusão das cores e a frouxa luz
que há na sombra dos dias.
O poema mais lindo da minha vida
ainda não nasceu.
Sonhei criá-lo hoje contigo
neste princípio de Outono
semente e fruto de teus jovens abraços.
Mas tu caminhavas na outra margem
de rosto escondido atrás da máscara
fugindo do amor banal
olhos baços de chorar sem lágrimas
a alma tão resignada de cruéis memórias
que o beijo ardente se perdeu no rio.
O meu rio
outrora caudaloso e vivo
hoje manso e vencido nos braços do estuário
onde me dizem que ainda há versos
voando perdidos e dispersos
como gaivotas bailando.
Mas o mar ali tão perto tudo engole
nas furiosas ondas do seu ancestral poder
devorando qualquer poema antes de nascer.
Que ao menos a réstia de luz do fim da tarde
mesmo sem bolinhas de sol e pérolas de chuva
me deixe pintar a memória da emoção
na tela sofrida e nua do teu corpo
deitado sobre a luminosa doçura da ilusão.


adão cruz

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Nota do editor

Úlltimo post da série de 23 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27242: Felizmente ainda há verão em 2025 (37): Amarante, a princesa do Tâmega, a 30 km de Candoz, e onde a natureza, a história e a cultura se combinam na perfeição (Luís Graça) - III (e última) Parte

domingo, 14 de setembro de 2025

Guiné 61/74 - P27219: Blogpoesia (807): "O nosso segredo", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


O NOSSO SEGREDO

O mais belo segredo da minha vida
onde o horizonte foge contra o tempo
é só nosso e de mais ninguém.

Quando as sombras negras desaparecem
ele procura ver-me na janela dos teus olhos
e tenta falar-me no silêncio do desdém.

Mais além veste-se de branco
de alma enorme e de pão quente
e do eco à volta do teu ninho
nascem reflexos de sol poente
vermelho de sangue em coração de gente.

Não consigo ver-te assim ausente
fora do calor do deserto que aqui mora
sem o dilúvio deste desejo permanente
que enche os verdes rios do meu segredo
e adormece sempre nos alvores da aurora.

Tudo me encaminha para os teus braços
quando te sentas à porta da minha idade
nesta entrada de enganos e algemas
onde o segredo que a vida encarna
entre as mãos livres e serenas
veste de beleza a mentira da verdade.

Quase me obriga a pedir ao vento
uma lufada de Primavera e sentimento
mas as palavras fazem ninho
no mais doce recanto do sofrimento
e adormecem de mansinho.

Vou embora…
São horas de saber se a vida vale a pena
neste dobrar de avessos e fantasias
junto ao rio que os sentidos fazem e desfazem.

Vou  [a] correr para o lado da nascente
sabendo que o rio me arrasta para o fim da tarde
na implacável força da corrente.

Ainda bem que esta margem é clara e amena
e do outro lado é tudo escuro quase negro
mas quando o fogo queima o pensamento
até o segredo azul de um pálido coração
escondido no ventre dos pinheiros
parece verde como o verde da ilusão.


adão cruz

(Revisão / fixação de texto: CV / LG)
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Nota do editor

Último post da série de 12 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27114: Blogpoesia (806): Versejar em Nova Sintra - 3: "Nova Sintra", pelo Cap Fonseca e Silva da CCS/BCAV 2867 (Aníbal José da Silva, ex-Fur Mil Alimentação)

quinta-feira, 28 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27163: Felizmente ainda há verão em 2025 (26): O Meu Poema Azul (Versão do fim da tarde) (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)



O MEU POEMA AZUL
(Versão do fim da tarde)

Não sei colher uma rosa
nem é grande a pena minha
não sei descer à cidade cantando
nem aprender sequer a pintar o tempo
à medida que a vida foi andando.
Não sei comer do prato dos outros
nem quero
não sinto inveja à beira da fartura
nem ouço o que a ausência tem para dizer
nas entrelinhas da secura.
Nunca sei parar o fluir dos dias e das noites
nem quebrar os ramos tortos da memória
trazendo às mãos tudo aquilo que não tive
e aos olhos tudo aquilo que não fui.
Dizem que no fim do dia ainda há um suspiro azul
quando a tarde se deita no colo da montanha
e o sol se dissolve no mar
onde repousam os que amaram sem medida
acreditando que as lágrimas eram vida.
Para além das sílabas e dos versos
sempre procurei a voz poderosa mais vizinha do silêncio…
o meu poema azul…
o suspiro de Outono onde a brisa se aninha
no suave perfume que o adivinha.

…Não sou capaz de recriar o brilho do poema azul...
e isso dá-me vontade de morrer.

O meu poema azul
lugar das palavras e dos versos no caminho do teu rosto
junto ao rio dos teus olhos onde a vida se fez poema
e o mar se deita nos lençóis de luz do fim do dia
o meu poema azul…
nascido do infindo perfumado do teu nome
onde danças o secreto voo das aves
sobre o último verso que escrevi
quando a noite se fez de estrelas.

…Não sei recriar o brilho do poema azul...
e isso sempre me deu vontade de morrer.

Tentei para lá das sílabas e dos versos
encontrar meu barco à entrada do mar
onde repousa teu corpo entre algas e maresia
meu amor perdido num campo de violetas.
O meu poema é tudo isto que me viveu e me iludiu
que me prendeu ao lugar azul que procurei noite e dia
por entre os versos do meu ser.
O poema mais lindo da minha vida ainda não nasceu
não tem asas nem olhos nem sentimento.
um poema apenas meu
neste solitário desejo do fim da tarde
que o trouxesse um dia o vento se vento houvesse
que a saudade o encontrasse onde ele estivesse
mas o meu poema azul já morreu.
E se me perguntam porque ao nascer já morreu
direi apenas
porque o pintei com o azul do céu.
E se me perguntam porque o escrevi com a cor do céu
direi apenas
foi no azul que sempre encontrei quem sou
e no azul do tempo onde perdi o meu poema
nunca o eco do teu nome se apagou.

…Nunca soube recriar o brilho do poema azul...
e isso sempre me deu vontade de morrer.

Dizem que no cimo dos pinheiros ainda é primavera
mas tão alto não cheguei
mais à mão molhei meus braços nus
no regato cristalino que corria por entre os dedos
num solo de cores e violino
e por entre a chama azul do instante
ficou meu poema suspenso da memória.
Nunca soube colher uma rosa nem descer à cidade cantando
sempre fui aquele que ontem dormiu sobre um poema azul
e das asas da ilusão se desprendia
sempre fui o mesmo que ontem se despiu
nos braços do poema que vivia
sempre fui aquele que ontem habitou em silêncio
o poema azul que acontecia
sempre fui aquele que sonhou em vão…
com o poema azul de mais um dia
sem saber que a fresca luz da manhã
sonho de esperança que não se alcança
há muito se fez noite de sombra e nostalgia.

…Nunca soube recriar o brilho do poema azul...
e isso sempre me deu vontade de morrer.

adão cruz

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Nota do editor

Último post da série de 27 de agosto de 2025 > Guiné 61/74 - P27158: Felizmente ainda há verão em 2025 (25): Cabo Verde, onde os sonhos proliferam e as águas azuis dão as bem-vindas aos visitantes (José Saúde, ex-Fur Mil Op Especiais)

segunda-feira, 4 de agosto de 2025

Guiné 61/74 - P27091: (in)citações (277): O cérebro também pode apodrecer (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)



O CÉREBRO TAMBÉM PODE APODRECER

adão cruz

Já o tenho dito muitas vezes, mas não me canso de o repetir. O nosso cérebro, encerrado completamente às escuras numa dura caixa óssea, é a estrutura mais complexa e mais difícil de entender, no planeta e no Universo conhecido. O simples cérebro de uma formiga é uma estrutura mais complexa e difícil de entender do que uma estrela. O nosso cérebro é composto por 86.000 milhões de células, ou neurónios, ligados entre si por biliões de ramificações. Um milímetro cúbico de córtex cerebral contém mais conexões do que seres humanos à superfície da terra. Este nosso admirável e soberano órgão realiza provavelmente triliões de ligações e cálculos durante os nossos raciocínios do dia-a-dia.

E todos nós o desprezamos, considerando-o pouco mais do que um instrumento de discussão futebolística. Porém, não é propriamente esta mensagem numérica o que aqui quero deixar. Gostaria que ficasse retida a sua essência, isto é, o reconhecimento da poderosíssima arma e riqueza da nossa estrutura mental, do nosso pensamento e da nossa razão.

Diante de tudo o que se passa actualmente no mundo, especialmente o silêncio e a indiferença perante a crueldade e a barbaridade nunca vistas, a desumanidade elevada ao mais alto grau, a morte lenta da solidariedade e justiça sociais, o hedonismo absoluto e o espezinhar de toda a ética e dignidade, como vemos inacreditavelmente e diariamente nos ditos líderes europeus e não só, sou levado a pensar que uma boa parte do cérebro humano da nossa sociedade está envolta numa nuvem de poeira ou mesmo enferrujada ou até apodrecida. Como se fora uma maçã, meio sã e meio podre. Simplesmente, a parte sã nunca consegue regenerar a parte podre, mas esta continua a invadir a parte sã até que toda a maçã apodreça por completo.

Se a parte podre e a parte sã da sociedade fossem bem definidas e houvesse uma hipótese cirúrgica de as separar, seria a única solução terapêutica, permitindo extirpar a metade podre, deitando-a repugnantemente ao lixo. A forma de o fazer, como é óbvio, não seria fácil de imaginar. Porém, o são e o podre da humanidade não estão, provavelmente, separados em duas metades distintas, como na maçã. O podre pode estar infiltrado no meio do são e o são infiltrado no meio do podre, o que nos leva a pensar que a vitória da parte sã se tornaria ainda muito mais difícil ou impossível.

Uma tão ciclópica tarefa, a ser tentada, só poderia ser levada a cabo no seio daquela parte da sociedade, cujo cérebro ainda saudável fosse capaz de lutar diariamente com as armas mais poderosas do ser humano, o pensamento e a razão, único detergente com poder para limpar as zonas podres da nossa mentalidade. Porém, tal detergente, aquele que a ignóbil e prostituída comunicação social não permite, é substituído por outro mais fraco, uma espécie de linha branca, fazendo pouca espuma e deixando o cérebro permanentemente untuoso de gordura. Seria indispensável conhecermos o mais profundamente possível e enfrentarmos como cidadãos conscientes os factores necróticos da degenerescência humana e os catalisadores da putrefação, que são incomensuráveis.

Desde a diabólica corrupção à criminalidade social dos que nunca foram filhos e nunca tiveram nada, até aos crimes bem mais graves e socialmente destrutivos de muitos dos que sempre tiveram pais e tiveram tudo. Desde as mentiras, distorções, falsidades e obscurantismos de toda a espécie, à monumental hipocrisia e crimes das instituições, nomeadamente religiosas, consideradas impenetráveis à desonra, mas mostrando-se ao mundo como campeãs em muita podridão, nomeadamente a que respeita a um dos mais hediondos crimes, a pedofilia.

Podemos pensar que se trata de um trabalho quase utópico, numa sociedade mentalmente anquilosada, atrofiada, de neurónios quase murchos, difíceis de reanimar, nos quais os poderes instituídos fecharam o fluxo da razão a sete chaves, a razão fruto do pensamento, o pensamento como a mais poderosa arma de que o homem dispõe contra a exploração do homem pelo homem, contra a escravidão, a perversão dos mais nobres princípios, contra a fraude de governos e grandes corruptos, contra a especulação selvagem, contra a injustiça, contra a mentira, contra a falta de ética e moral, contra a estupidificação institucionalizada e contra a falsa cultura, ...a cínica madrasta de um sociedade livre.

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Nota do editor

Último post da série de 21 de julho de 2025 > Guiné 61/74 - P27042: (in)citações (276): Os sinais de Deus (Joaquim Mexia Alves, ex-Alf Mil Op Especiais)

sexta-feira, 25 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26724: (In)citações (267): O Vinte e cinco de Abril é um poema universal (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico)

Foto com a devida vénia a AGENDA CULTURAL LISBOA


25 DE ABRIL

adão cruz

O Vinte e cinco de Abril é um poema universal.

É muito difícil entender a alma quase cósmica dos valores, dos princípios, e dos magníficos versos deste profundo poema.

Recordar o 25 de Abril não é relembrar apenas o facto concreto de um golpe militar e de uma revolução popular, com mais cartazes ou menos cartazes, mais foguetes ou menos foguetes, mais canções ou menos canções, ainda que de iniciativa extremamente louvável.

Recordar e comemorar Abril é ensinar em tudo quanto é lugar, na escola, na rua, no trabalho, que o 25 de Abril foi um portentoso fenómeno universal de iluminação das consciências, de abertura das catacumbas fascistas, um glorioso hino à liberdade com repercussão e geração de profundas mudanças sociais e mentais não só em Portugal mas em muitos países do mundo.

O vinte e cinco de Abril foi um dos fenómenos político-sociais de maior importância pedagógica dentro de uma sociedade encarcerada em mitos, preconceitos, obscurantismos e grilhetas mentais que formataram e aviltaram a vida até meados do século passado. Os seus valores intrínsecos, mal-entendidos e mal interpretados por muita gente, mesmo gente de cultura, foram repensados e desenvolvidos ao longo dos anos e percorreram o mundo de lés-a-lés, renascendo e reproduzindo-se como elevados conceitos de deveres, direitos, dignidade e justiça do cidadão no seio de um colectivo humano. Mas este entendimento, infelizmente, apenas fazia parte daquela humanidade sonhadora e senhora da mentalidade saudável do homem cidadão e do político sério, honesto, social e bem-intencionado.

Pondo de lado a ignorância, a incultura, o obscurantismo de qualquer espécie de que muita gente não era culpada, mas vítima de grupos organizados a partir de altas instâncias poderosamente perversas, por mais cru que nos pareça, não devemos escamoteá-lo: uma boa parte da humanidade sempre foi corrompida e continua corrompida. Gente sem valores do ponto de vista da desumanidade, da desigualdade, da perda de consciência, da honra e dignidade, da crueldade, do ódio, da vingança, da sede de sangue, do deus dinheiro acima de tudo, do poder a qualquer preço, da ganância, da guerra e da morte como indústria.

E do cancro que gera todas estas metástases, a eterna corrupção. Corrupto significa podre. Estes sim, sempre foram e continuam a ser os inquisidores dos grandes sonhos, os mesmos de sempre, desde a morte de Giordano Bruno até à fogueira dos belíssimos versos do magnífico poema que abriu as nossas almas no vinte e cinco de Abril.

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Nota do editor

Último post da série de 20 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26709: (In)citações (266): A falha da natureza imperfeita, por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

domingo, 20 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26709: (In)citações (266): A falha da natureza imperfeita, por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

A FALHA DA NATUREZA IMPERFEITA

adão cruz

Ainda bem que a chuva não era tão intensa como se previa, caso contrário, entraria pela parte corroída da janela, caindo no emaranhado de fios estendidos no chão por detrás dos computadores. O Senhor David bulia desacertadamente com o rato na sua mão direita e tamborilava com os dedos da mão esquerda sobre o joelho nu. O Senhor David usava aquele pijama de calção florido, oferecido um dia pela sua última amante num hotel da Gran Via. Muitos livros do lado direito e do lado esquerdo, por cima e por baixo, inúmeras fotografias nas estantes, fotografias dos filhos, dos netos, sobrinhos e também de algumas namoradas que o tempo eclipsou.

O Senhor David tinha um cancro, não se sabia bem onde, mas que não se manifestava, ou então estaria por detrás das diversas maleitas mais ou menos indefinidas que o não deixavam dormir nem beber o copito, metabolito essencial a um certo equilíbrio necessário para que os amigos não deixassem de dizer: Estás com um aspecto porreiro. Afastou-se do computador, foi ao quarto de banho ver a face interna das pálpebras que estava vermelhinha. O suficiente para sentir os efeitos de um suavíssimo sopro de uns restos de testosterona a que o cérebro respondeu com discretos estímulos espásticos. Como lhe tinham dito que a sua esperança de vida não iria além de seis meses, no que ele procurava não acreditar, olhou para todos aqueles rolos de papel higiénico, as bisnagas de creme de barbear e de pasta de dentes, achou que eram demais e pensou em matar-se. Para desanuviar, saiu de casa, pegou no carro, subiu a rampa, desceu a colina e seguiu até à margem do rio onde parou, como era seu hábito. Manteve-se dentro do carro, com os olhos fitos nos corvos marinhos de asas abertas a secarem ao sol, ouvindo baixinho o adagietto, o quarto andamento da 5.ª Sinfonia de Mahler, e adormeceu.

E teve um sonho. Ao seu lado, sentou-se uma jovem de rubros lábios e mamas erectas segredando-lhe ao ouvido que era a sua fada. Como o Senhor David não acreditava em fadas, e a audição já não era de confiar, a palavra fada fez com que os neurónios lhe trocassem a vogal e criassem ali uma atmosfera erótica. Dizia a bela mulher que viera ali com a missão de lhe fazer crer que a velhice não era um deserto e inóspito país, nem o homem morria antes de o mundo morrer ao seu redor. Por outras palavras, ainda haveria lugar para um afecto quentinho.

Acordou com umas pancadinhas no vidro e viu uns restos de mulher perdidos num montão de sacos à cabeça e pendurados nas mãos. No centro de gravidade daquele difícil equilíbrio, mal se enxergavam dois olhos negros, sem brilho, cavados no fundo de dois ninhos de rugas. O Senhor David abriu o vidro e ouviu uma voz gasta pedindo uma moedinha. Enquanto procurava no bolso a moeda do costume, a pedinte viu um livro no banco do carro e perguntou se ele gostava de ler. Ele acenou com a cabeça a dizer que sim e ouviu um suspiro. Olhou para a mulher e viu nos olhos negros e fundos uma faísca de brilho.

- Gosta de ler?
- Em tempos, quando era viva, lia muito e sempre gostei de ler.
- Mas ainda não morreu!
- O Senhor acha que isto é vida? A gente pode morrer muito antes de fechar os olhos.

Estas palavras trouxeram à memória do Senhor David um texto de Sonia Zagehtto, em que ela pergunta quem morre primeiro, se o homem ou o mundo ao seu redor. E qual a verdadeira morte, se o último suspiro, se o instante em que ninguém percebe a nossa falta, se o dia em que ninguém pergunta por nós, ou quando a casa grande e confortável se torna um território de esquecimento.

O Senhor David achou que a pedinte tinha razão e percebeu que a morte pode começar nessa casa sem ninguém, nessa solidão em que os dias se tornam vazios e as noites demasiado silenciosas, nessa idade em que o ser humano se torna invisível.

De qualquer forma, a ideia de antecipar o encontro com o nosso destino final não era boa. O prazer de um copito à revelia e o facto de ter 50% a seu favor na vontade de tornar real a fada do sonho impediam-no de antecipar o silêncio absoluto. Além disso, o mundo em seu redor, se bem que feio e injusto, ainda não tinha morrido de todo. Ainda dava sinais de vida, mostrando aqui e ali coisas lindas e boas que, de alguma forma, ainda interagiam com ele. Coisas lindas como aquele sorriso de felicidade e espanto, aberto no rosto carcomido da mulher dos sacos, quando o Senhor David foi à mala do carro e lhe ofereceu dois dos seus livros, com dedicatória e tudo.

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Nota do editor

Último post da série de 11 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26675: (In)citações (265): Obrigado ao vagomestre Vieira que das tripas fez coração... e ao Noratlas da FAP que, de vez em quando, nos largava uns frescos de paraquedas (Ramiro Figueira e Carlos Barrros, 2ª CART / BART 6520/72, Nova Sintra, 1972/74)72, Nova Sintra, 1972/74)

sexta-feira, 21 de março de 2025

Guiné 61/74 - P26602: Blogpoesia (803): No Dia Mundial da Poesia: "A Noite Mundial da Poesia", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

© ADÃO CRUZ


A NOITE MUNDIAL DA POESIA

Voa no céu o som de um violino
chorando um poema perdido
não se sabe onde nem quando
se na claridade dos poetas mortos
se nas sombras da vida errando.
O dilema entre o silêncio e a palavra
nasce da lógica discursiva
que cabe no ridículo do poema
quando o poeta tudo vê e nada sabe.
Há um dilema entre o silêncio e a palavra
quando em teatral mensagem de poema
o poeta sonha e delira
ao enganar a poesia
nos buracos negros da mentira.
Morre a razão
nas palavras perdidas na aridez do verso
e foge a poesia da rima e dos espaços
quando do poema corre o sangue
de um mundo feito em pedaços.
Reside a poesia no silêncio de quem um dia
espera ouvir a sua voz
com ouvidos que a mereçam
mas neste tempo de ruídos e ruínas
só mudos ecos chegam até nós.
A poesia tem olhos de céu infindo
olhos de distância e de mil fontes
na planura de mil campos e horizontes.
Mais rente ao chão
voa a poesia ao redor do sentimento
como borboleta em jardim disperso
poisando na flor apetecida
onde canta a beleza de um verso.
No mundo de hoje
sem alma nem sentimento
amordaçado de mil gritos levados pelo vento
debate-se a verdade e a mentira
entre o rosto e a máscara do poema
sobrando nas entrelinhas da secura
sem dor no coração
os restos mortais
de milhões de crianças caídas no chão.
No mundo de hoje
não pode haver poetas vivos
alheados de hipócritas metáforas
estendidas sobre a mesa da vaidade
ou penduradas nos olhos da cidade.
No mundo de hoje
não pode haver poetas de almas caladas
adormecidas na noite mundial da ilusão
dando apenas ares de acordadas
quando sonham poesia nos avessos da razão.


adão cruz
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Nota do editor

Último post da série de 15 de dezembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26269: Blogpoesia (802): "O sonhador é um fazedor de carências", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

sexta-feira, 14 de fevereiro de 2025

Guiné 61/74 - P26495: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (35): "Até choras por andar de lambreta" (Cartune de Manuel Cruz, filho de Adão Cruz, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)




"Até choras por andar de lambreta"... Cartune de Manel Cruz,  músico e artista plástico, nascido em 1974,em São Jpão da Madeira, filho do  nosso camarada Adão Cruz, com a devida vénia.

Foto:  © Manuel Cruz / Adão Cruz (20256). Todos os direitos reservados [Edição e legendagem: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]


1. Há dias descobri que o nosso camarada Adão Cruz, médico cardiologista reformado, ex-alf mil médico, CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68), além de grande escritor (contista e poeta)  e pintor, e nosso grão -tabanqueiro de longa data, tem um filho  (um de 3 filhos) que também é um talentoso ilustrador e cartunista, além de músico. 

No passado 2 de fevereiro de 2025, 11:06, o Adão Cruz mandou-nos a seguinte mensagem:

Assunto: Manel

O meu Manel (Manuel Cruz), tem mais de dois mil desenhos feitos ao longo da adolescência e também alguns poemas. Já publiquei algumas centenas de desenhos, mas todos os dias encontro mais e mais cadernos e papéis cheios deles. Vou publicando, tenham paciência.

2. Por falta de tempo, não posso prestar toda a  atenção que devia, ao correio que me chega, apesar da ajuda do Carlos Vinhal. 

Mas hoje dei de caras com este "cartoon" (ou cartune, como já vem grafado nos nossos dicionários), e lembrei-me de uma expressão que se ouvia bastante na nossa adolescência: "Até choras por andar de lambreta" (sic)...  (A piada era para as meninas do nosso tempo, dos idos anos de 60,  que, de saia até meio da canela,  se começavam a aventurar nestas maquinetas, de pôr os cabelos dos rapazes em pé.)

Lembram-se da "lambreta" (origem etimológica: Lambretta®, marca registada italiana) ? Diz o dicionário: "Veículo de duas rodas, accionado por um pequeno motor, de forma análoga à motocicleta, mas provido de um assento em lugar de selim de montar, e com rodas de menor diâmetro.

Fonte: "lambreta", in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2025, https://dicionario.priberam.org/lambreta.

Quem não as viu passar nas então ainda pacatas ruas das nossas vilas e cidades,  os cabelos soltos ao vento, com as pernas muito apertadinhas para travar as saias ? Livres, como o vento... 

Foi o princípio da "revolução feminista" no sul da Europa...   Os "despeitados" chamavam-lhes "marias-rapazes"...  

Hoje são avozinhas... E são as suas netas que  fazem parte da nossa paisagem urbana: usam  minissaia ou calções, a perna ao léu. E,  felizmente,  também capacete, coisa que não era obrigatória nos anos 60/70/80 (!) (só a partir de 1 de janeiro de 1991)...

Ainda por cima hoje é dia dos namorados.. Pois ai vai um cartune do Manel Cruz, sem legenda, e com a devida vénia ao artista e ao pai...(De resto, os filhos dos nossos camaradas, nossos filhos são...)

Há um página da "Lambretta", na net: para  quem quiser saber mais sobre a história deste veículo que ficou no nosso imaginário dos anos 60, clicar aqui.  No Facebook há também uma página da "Lambretta - Portugal", que merece uma visita...

Enfim, coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços... (*)

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Nota do editor:

(*) Último poste da série > 8 de fevereiro de 2025 > Guiné 61/74 - P26473: Coisas & loisas do nosso tempo de meninos e moços (34): O amola-tesouras (Rui Felício, nado e criado no Bairro Norton de Matos, em Coimbra)

domingo, 15 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26269: Blogpoesia (802): "O sonhador é um fazedor de carências", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

O sonhador
é um fazedor de carências


Tu és uma profunda sonhadora
a minha carência
de um belo sonho de uma noite de luar
à beira de um imenso mar azul
o colo cintilante de estrelas
e os lábios húmidos de poemas.

Os olhos são os mesmos
a boca não mudou de lugar
e os beijos ainda lá estão
a atear a última chama do verão.

Diz-me onde tens a alma
gostava tanto de saber
gostava tanto de beber
um cálice de Vodka
ou de Porto
à saúde da tua alma
Ou de fel…não importa.

Vagueio horas a fio
preso aos dias e às noites
se calhar a vida inteira
à procura de um verso que perdi
não sei onde nem quando…
não sei se na vida errando
não sei se dentro de ti.


adão cruz
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Nota do editor

Útimo post da série de 2 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26002: Blogpoesia (801): "Preso à cidade", por Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887 (Canquelifá e Bigene, 1966/68)

domingo, 1 de dezembro de 2024

Guiné 61/74 - P26221: (In)citações (258): Era ele... Todo inteiro (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68)


ERA ELE… TODO INTEIRO

adão cruz

Hoje, ao meio-dia, estava eu sentado na mesa do costume, virado para a porta do restaurante. Vi-o entrar pela mão de um jovem, muito provavelmente seu filho, ou algum dos raros seres humanos que ainda guardam dentro do peito um coração em vez de uma pedra. Rosto chupado, coberto de pelos, desde o cabelo enrodilhado à barba grisalha e emaranhada, olhos lá no fundo de umas órbitas arroxeadas, fitava o infinito de uma qualquer galáxia para lá das paredes do restaurante. Vestia um casaco escuro muito coçado, de trespasse, caído do lado direito por força do uso e abuso.

Era mesmo ele, não tive dúvidas, o sem-abrigo que eu encontro todos os dias na Avenida dos Aliados, enfiado numa caixa de cartão, soerguendo a cabeça à passagem de alguém que lhe pareça suficientemente humano para se desapegar de uma moeda.

Sentaram-se na mesa frente à minha. O jovem, provavelmente seu filho, leu pausadamente o menu três ou quatro vezes, tentando libertá-lo da alienação da sua paisagem cósmica. Bacalhau assado na brasa… bacalhau à Braga… vitela na caçarola… bifinhos de frango…, mas o olhar fixo, sabe-se lá onde, não se desfazia. Pensei que estava pousado na televisão que ficava atrás de mim, mas olhando de esguelha, vi que estava preso no lado oposto, na parede nua.

Ao fim de uns minutos e de carinhosa paciência, o presumível filho conseguiu um assentimento no bacalhau na brasa. Pressentia-se que o apetite era pouco, ou melhor, já não era capaz de sentir o que é ter apetite. Habituado à fome, ter um nutrido prato na sua frente era um incongruente desábito. Lembrou-me os tempos da guerra, em que nós nos ríamos do perigo, tão habituados que estávamos a ele.

Quando esperava deste anónimo sem-abrigo uma sofreguidão faminta, nem consciência tive de um organismo que se habituara a desdenhar da fome e do apetite devorador dos que tudo comem e não deixam nada. Esboçou um sorriso desdentado nascido lá do fundo do desânimo, conseguiu lamber umas lascas do bacalhau, tragar dois goles de vinho e rir, não dando por isso, dos apetites do mundo, assim testemunhando, sem disso ter consciência, o ridículo de “O Mito do Normal”, de Gabor Maté.

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Nota do editor

Último post da série de 28 de novembro de 2024 > Guiné 61/74 - P26205: (In)citações (269): Hoje, Dia de Acção de Graças, o Thanksgiving Day, nos EUA: que haja paz entre os homens (José Câmara)

domingo, 3 de novembro de 2024

Guiné 61/74 - P26112: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887) (9): Um buraco na parede

1. Mais um conto verdadeiro da Guiné, do nosso camarada Adão Cruz, Médico Cardiologista, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547 / BCAÇ 1887, Canquelifá e Bigene, 1966/68.


MEMÓRIAS DE UM MÉDICO EM CAMPANHA

9 - Um buraco na rede

(Mais um conto – verdadeiro – da Guiné)

Acordei a meio da noite e não fechei mais os olhos. A insónia levou-me onde bem lhe apeteceu. Gemi ao estalar do coração de uma mãe, senti o amargo do choro convulso de um pai, reabsorvi a minha dolorosa resignação… um barco e as amarras que o prendem aos olhos esbugalhados do cais, amarras que se despedaçam, pois ninguém lhes sabe desfazer os nós.

A madrugada de hoje começa a clarear. Quem olha através da rede da janela, sem vidros, julga que vai nascer uma amena manhã de primavera, mas em breve ela parecerá vomitada do ventre de uma fogueira.

Passarinhos coloridos salpicam de gorjeios o silêncio morno do amanhecer. Um grande inseto marra nervosamente de encontro à rede, numa volúpia incontida de liberdade. Eu e aquele moscardo à procura de um buraco na rede!

De um salto, corri da cama até ao chuveiro improvisado que borrifava sobre mim os mais deliciosos minutos do dia. Enquanto a água escorria em fios esganados, eu ia antevendo o prazer de uma caçada matinal às rolas. Iria pedir a carabina ao libanês senhor Heyle, o qual, àquela hora, ensonado, não se lembrava que não gostava de a emprestar. De qualquer forma, a mim nunca a recusaria, pois precisava de mim como médico.

Postar-me-ia a cem metros do arame farpado, por detrás do poço do jagudi, bem perto do canavial. Vindas das árvores que se encontram no baixio junto à bolanha, as rolas atingem, sem qualquer desconfiança, o mangueiro que está mesmo por cima da minha cabeça.

Será só apontar. Mas… nem apontar foi preciso, pois, as rolas não vieram, e as que vieram, fugiram, sem hesitações de pouso, como se, do lado de lá do canavial, alguém as tivesse avisado.

Quando se vive no isolamento, sobretudo na solidão da guerra sem sentido, o tempo jamais passa, mas as frações de tempo parecem voar como estas rolas que escarnecem de mim. Não sei se adormeci, penso que sim, movido pelo zumbido melífluo e hipnotizante de um desses enxames de abelhas selvagens que, à volta de um galho de cajueiro, ordenam a sua inquietante anarquia.

Quando acordei e olhei para cima, uma rolita inocente, vestida ainda com o castanho-torrado da primeira penugem, esticava o pescoço curioso para ver quem eu era. Estava tão perto, que eu lhe enxergava os olhitos faiscantes e quase ouvia as primeiras falas que as cordas vocais começavam a ensaiar. Instintivamente, colei-me à arma e só vi a cabecita inquieta estremecendo na ranhura do ponto de mira. Se ao menos ela fugisse! Se ao menos ela fugisse! Apertei o gatilho, e como estava tão perto, nem dei pela queda do seu minúsculo corpo.

Caiu o meio-dia sob a forma de um sol escaldante que só as árvores mais frondosas conseguiam coar. Espetei os olhos na avezita moribunda e vi que um fio de sangue lhe pintava o bico. Senti profundamente o gosto acre daquele sangue. Soube-me à guerra, a roubo, a crime, a futuro sem vida e vida sem futuro, à terra calcinada, à chacina. Torci-lhe três vezes o pescoço e atirei-a ao regato mais próximo. Puxei de um cigarro e tentei, com ele, acabar a tristeza e a amargura desta manhã.

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Nota do editor:

Vd. postes da série de:

25 de junho de 2016 > Guiné 63/74 - P16235: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (1): O Parto - ou o nascimento do Adão Doutor em Bigene

2 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16356: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (2): Cadi suma outra mulher

6 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16363: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (3): Os prisioneiros

11 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16381: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (4): Joãozinho, nunca na vida te deixarei sozinho

16 de agosto de 2016 > Guiné 63/74 - P16392: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (5): O diagnóstico

6 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16453: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (6): Pequenas Grandes Verdades

13 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16485: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (7): Guiné - Irkutsk

27 de setembro de 2016 > Guiné 63/74 - P16528: Memórias de um médico em campanha (Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547) (8): O Tanque

domingo, 27 de outubro de 2024

Guiné 61/74 - P26084: Contos do ser e não ser: Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (41): "A gema de fora"

Adão Pinho Cruz
Ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547
Autor do livro "Contos do Ser e Não Ser"


A gema de fora

Mal a luz do dia beliscou a frincha da janela, o homem acordou, acordou, como sempre, com pedaços do passado agarrados ao pijama, às mãos e aos cabelos.

Sentou-se na beira da cama e um sonolento: Oh! Que merda! Soltou-se da garganta ainda seca do bagaço da véspera. Quando os pés apalparam a falta dos chinelos, moldou os passos ao chão de modo a evitar o mais possível a madeira fria do soalho. Sobre a cómoda, continuava a tristeza à mistura com águas-de-colónia de vários tipos. Abriu um sorriso quando viu no tapete o artigo que acabara de escrever na véspera e que o sono fizera escorregar-lhe das mãos, dera-lhe o título Orgasmo, inspirando-se numa dessas tardes em que o fim do domingo abre as portas à demência. A caminho do quarto de banho, ia pensando nas palavras que nada dizem e na flatulência da comunicação que o fizera deitar-se tão tarde e acordar, assim, com a gema de fora.

Sempre nele permanecera uma grande dúvida quanto à eficácia de debates como o da véspera, será que têm algum valor como profiláticos da deterioração mental que a idade e os tempos acarretam ou são, eles próprios, catalisadores dessa mesma deterioração? Sobretudo se tais debates não passam de regateirices, confusões, dessintonia de mediocridade e estupidez, discutindo pessoas reles, factos ridículos, ou ideias banais, estafadas e apodrecidas, sobretudo se tais debates se processam entre corruptos, golpistas e terroristas que invadem as casas, maquilhados de gente de bem e cobardemente espantalhados de homens dignos. Sempre pensara que não se deve transformar em espetáculo o perigo da lavagem de muitos rostos pelo sabão da ingenuidade das pessoas, a verdade é só uma, e ele não aderia, de ânimo leve, à tese de que cada um teria a sua verdade, a verdade existe, está lá, está sempre lá, dentro das coordenadas humanas, há quem dela se aproxime e quem dela se afaste, mas o único caminho da verdade é o caminho da lucidez e não há lucidez que não assente na razão. Sem deixar de considerar que a irracionalidade é o caminho das trevas, cada um tem o direito a escolher o seu caminho da verdade, mas aí tem-se o direito de o julgar pela escolha, se se lhe conhece a formação ou a deformação, a inteligência ou a indigência, a humildade ou a petulância, o rigor ou a confusão, a seriedade ou a manigância. Grande respeitador do relativo e da cultura da diferença, o homem que não tinha nome consideravase adversário do consenso, do consenso acima de tudo, que destrói e anula o indivíduo, e da tolerância, tolerância como virtude, que implica sempre a presença de alguém que tolera e de alguém que é tolerado. O homem acordou maldisposto porque não acreditava na existência de debates fluidos, corajosos e pedagógicos e, mesmo assim, cedera-lhes parte do seu tempo de sono.

Convidar tanta gente de caras e tantas caras de gente, fazer cócegas em temas profundos, inacessíveis a mentecaptos, meter num mesmo saco capazes e incapazes, lúcidos e ineptos, fazer de assuntos sérios, estéreis, discussões, criar espetáculos de feira sem o mínimo receio de sujar a consciência e ofender a verdade, era mais do que razão para o incómodo acordar dessa manhã. A visão político-filosófica assente na maior preciosidade do homem, a razão, ao contrário do que muitos pensam, é a única visão profunda, dinâmica, mentalmente produtiva, constante recriação de vivências, ideias e utopias, inexoravelmente ausentes do pensamento irracional, retrógrado, estagnado e paralítico.

Já no café da esquina, o homem deu de caras com a mulher de longos cabelos negros, rosto comprido e olhos paradoxalmente achinesados, a quem pedira, há cinco anos atrás, para posar para si, nada tendo conseguido. Esguia, quase linear, de uma beleza que parecia desenhada, a sua figura prendia os olhos que nela tocavam. Sempre que o homem a via, recordavalhe alguém e bulia-lhe com qualquer coisa que havia dentro dele, ela própria, alguém que já vira, alguém que gostaria de encontrar?

Na mesa do lado, via-se que um outro homem, seguramente um habitante dessas inúmeras ilhas que se escondem no ventre da cidade, tentara encontrar uma camisita de riscas verdes a condizer com o verde das calças, se bem que mais escuro, aceitava-se, não era muito boa a combinação, mas percebia-se a ideia, já não era de aceitar tão facilmente aquela senhora vista de trás, relativamente escorreita, blusa na moda e saia quase mini, moldando formas enganadoramente jovens, que o virar da cara logo atraiçoava ao denunciar as engelhas dos setenta anos. Ninguém tem nada com isso e se ele mentalmente o comentava é porque considerava o sentido do ridículo quase um irmão gémeo da inteligência.

Uma outra senhora tentava limpar, com um guardanapo de papel, os pingos de baba que o marido, por força de tentar sorrir, deixava escorrer dos lábios inertes sobre a gravata cinzenta, deve ter sido acometido de acidente vascular cerebral, pelo menos assim o descrevera o genro à saída do banco: “O meu sogro teve um ataque celebral e ficou com a boca a tocar flauta e a pôr açúcar nas farturas.” Mas ele, provavelmente, nunca entrara num banco, não era desses, não, à esquina do banco, onde costuma fazer umas horas no engraxa, como está de baixa pela caixa, aproveita para andar de caixa pela baixa, pelo que não deve ser este o seu sogro, este tem ar de quem tem massa, o que vale é que o acidente vascular cerebral dos ricos é igual ao acidente vascular celebral dos pobres. Mesmo hemiplégico, nem por isso deixou de sugerir, com a mão válida, que a mulher esfregasse suavemente o guardanapo um pouco abaixo da fivela do cinto, ao que ela acedeu de maneira afável e sorridente. Em paga, ele abriu o livro de cheques e mostrou o que havia por lá, ela arregalou os olhos e inspecionou-lhe, com falsa displicência, o pavilhão auricular, tentando arrancar-lhe docemente uns pelos esbranquiçados e eremitas que teimaram isolar-se do mundo cabeludo. Ciente de que a poderosa e autêntica dinâmica da vida, quer se queira quer não, reside no sexo, não tinha dúvidas em aceitar que o homem do livro de cheques optaria, se fosse possível, dar-lhe a escolher, por poder levantar o pénis em vez da mão paralítica.

Do outro lado do homem sem nome, uma mulher cheirava a perfume que tolhia, bafejou os óculos, limpou-os a um pequeno lenço e pô-los em contraluz para ver o resultado, mas os seus olhos em vez de fitarem o vidro, fizeram esguelha para o companheiro que tinha na frente o generoso cruzar de pernas de uma dessas liberais criadoras de pulsões. Foi para isto que se levantou tão cedo, afinal, o que veio ele ali fazer? Um súbito silêncio, um silêncio esquisito instalou-se à sua volta, o silêncio daqueles momentos em que não se sabe o que fazer, em que se entrechocam o querer e o não querer, o sentir e o não sentir, ele tinha pedido um café e lia o jornal, lembrava-se de que não há nada mais saboroso do que faltar ao trabalho e ir para o café ler o jornal, ou melhor, algumas coisas boas que o jornal comporta, no meio de tanto lixo, levantar os olhos de vez em quando, presenciar as descarnadas cenas da vida, dar cem ou duzentos paus a um mendigo andrajoso ou a uma prostituta bem vestida que os pede emprestados, levantar os olhos de vez em quando e pensar na grandiosa obra daquilo a que chamam criação e, ao que parece, nunca fora criado nem inventado, apenas desenvolvido dentro da ordem natural, obra toda errada por adulterada, é certo, mas grandiosa.

O homem acreditava que o equilíbrio entre o que somos e o que acreditamos e o que os outros são e o que pensam é de tal modo difícil, que a forma mais sábia de nos mantermos verticais neste mundo é colocarmo-nos na posição de deitados, isto é, na posição de aprender. O comum das pessoas que escrevem não difere do comum das pessoas que leem, tudo estaria bem se as pessoas que leem não se sentissem os educandos dos sábios que escrevem, e as pessoas que escrevem não inchassem com as banalidades que dizem, há os que merecem ser lidos e os que não o merecem, simplesmente, só a meio da leitura a gente se dá conta e lá se vai aquele tempo por água abaixo. A nossa cabeça é invadida pela cobarde e revoltante ideia de pensar que a única hipótese que nos resta é não perder o sentido de humor e marimbar-se para os que não respeitam, nem de longe nem de perto, a capacidade que os outros têm, apesar de estarem calados, de ver que eles não sabem nada do que dizem, e que os seus comentários, sem vivências sérias a escorá-los ou solidez cultural a estruturá-los, não passam de mastigada para inglês ver, é sobremaneira penoso e ridículo um qualquer medíocre pegar na caneta ou na língua para analisar figuras cuja vida, formação e inteligência ele não tem capacidade para entender. Pensamos logo como se comportariam tais sábios, se tivessem uma dor no peito, uma dor no peito, porquê uma dor no peito? Tudo é secundário e virado do avesso quando há uma dor no peito, o rico diz que é pobre, o que é, quase sempre, verdade. O político de direita diz que é de esquerda e, algumas vezes, vice-versa, que é o que eles acham que os outros gostariam que eles fossem. O forte não desmente a sua fraqueza, o vigarista confessa o desejo de ter sido a pessoa mais séria, o articulista ou o comentador prestam-se a engolir o que disseram se nisso residir a analgesia.

Toda a hipocrisia vem ao-de-laço de uma dor no peito, a dor no peito despe até à nudez aquele que a sofre, dissolve a vaidade e coloca qualquer homem perante si mesmo, é o detergente que embranquece o espírito e lava a memória. A dor no peito é uma espécie de fronteira entre a vida e a morte, perante ela, ninguém tem vergonha de ser ou parecer ignorante. Não sabem que a dor no peito pode ser, apenas e exclusivamente, a somatização da consciência da nossa insignificância, se o soubessem e disso tivessem a certeza, talvez nem se importassem. Era isso que assustava o homem que não tinha nome, não a dor no peito, mas a fraqueza de um mundo que morria assustado, a grandeza delapidada no esgotar da razão, o vaguear dentro do ciclo vicioso de um sonho desfocado e confuso de que se não acorda, a sensação asfixiante de que o mundo se estreita e se dissolve no fim do corpo abalado por uma dor no peito.

Dobrou o jornal, enfiou o sobretudo e sentiu que aquela manhã não era bem igual às outras, mediu, de novo, todas as caras, perguntou a si mesmo o que estava ali a fazer no meio de uma sociedade de olhos vendados, cega, sem horizontes, que nega a razão como única riqueza do homem, voltou a perguntar a si mesmo o que fazia ali e o que tinha ele a ver com tudo aquilo, na imensidão apaixonante do Universo o que era, afinal, aquele café e aquele jornal, o que era o viver, o ter vivido, e o que se há de ter de viver.

Levantou-se e saiu, o ar fresco da manhã ainda lá estava para o acariciar.

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Nota do editor

Último post da série de 20 de outubro de 2024 > Guiné 61/74 - P26061: Contos do ser e não ser: Adão Cruz, ex-Alf Mil Médico da CCAÇ 1547/BCAÇ 1887 (40): "O homem sem nome"